Poucos estrangeiros visitavam aquele edifício. O Elefante da Bastilha

“Há vinte anos, via-se ainda no ângulo sudeste da Praça da Bastilha, próximo à Estação do Canal, cavada no antigo fosso da prisão cidadela, um extravagante monumento*, hoje inteiramente esquecido dos Parisienses, conquanto tal esquecimento seja imerecido, por ser aquele monumento uma recordação do “membro do Instituto, general-chefe do exercito do Egipto”.

Dissemos monumento, porém, na realidade, não passava de um esboço o que assim o denominamos. Ainda assim, esse mesmo esboço, esqueleto prodigioso, cadáver grandioso de uma ideia de Napoleão, que duas ou três rajadas de vento sucessivas tinham arrebatado e cada vez lançado para mais longe de nós, tornara-se histórico e tomara um não sei quê de definitivo, que contrastava com o seu aspecto provisório. Era um elefante de quarenta pés de altura, construído de tabique e alvenaria, com a sua torre às costas, quase do tamanho de uma casa, outrora pintado de verde por um desconhecido pinta-monos, actualmente pintado de preto pelo ar, pela chuva e pelo tempo. Visto de noite, à claridade das estrelas, a larga frente do colosso, a tromba, os dentes, a torre que sustentava em cima de si, o descomunal costado, as quatro pernas, semelhantes a quatro colunas, tudo isto formava um vulto surpreendente e terrível naquele ângulo deserto e descoberto da praça. Não se sabia o que aquilo era. Parecia uma espécie de símbolo da força popular. Era uma coisa sombria, enigmática e imensa. Era como um fantasma visível, posto de pé ao lado do espectro invisível da Bastilha.

Poucos estrangeiros visitavam aquele edifício, nem um só transeunte lhe deitava os olhos. Na época em que falamos, ia-se gradualmente desmoronando; a cada estação, caíam-lhe pedaços de cal, que lhe deixavam uma chagas de hediondo aspecto. Para ali jazia esquecido “pelo edis”, como se diz em geringonça elegante, desde 1814, abandonado no seu canto, triste, doente, podre, manchada a cada instante pelos cocheiros bêbados; com a barriga crivada de buracos, a armação da cauda à vista e os intervalos das pernas obstruídos pelas ervas que entre elas lhe cresciam. Além disso, como o nível da praça em roda havia trinta anos se ia elevando mais e mais, por esse lento, mas contínuo movimento que insensivelmente levanta o solo das grandes cidades, ficara num baixo, de modo que parecia que lhe ia fugindo a terra sob os pés. Para ali estava, pois, imundo, desprezado, repelente e soberbo, feio aos olhos do burguês, melancólico aos olhos do pensador. Tinha alguma coisa de imundície à espera de ser varrida e de uma majestade que vão decapitar.

Como já dissemos, de noite mudava o aspecto. A noite é o verdadeiro meio de tudo o que é sombra. Apenas sobrevinham os vapores do crepúsculo. Transfigurava-se o vetusto elefante, e então tomava uma figura serena, mas terrível, no meio do medonho silêncio das trevas. Visto pertencer ao passado, pertencia à noite, e aquela escuridão condizia com a sua grandeza.

Desapareceu, porém, este monumento, rude, colossal, pesado, áspero, austero, quase disforme, mas, em todo o caso, majestoso e selado com o cunho de uma gravidade magnífica e selvagem, desapareceu, dizíamos, para deixar reinar em paz a espécie de fogão gigantesco**, com a sua respectiva chaminé, que substituiu a sombria fortaleza de nove torres, quase como a burguesia substituiu o feudalismo. Nada mais natural do que ser um fogão o símbolo de uma época, cujo poder se contém numa marmita. Esta época há-de passar, se já não está passando; principia-se a compreender que, se numa caldeira pode haver força, o poder só num cérebro é possível conter-se; por outras palavras: que o que arrasta e leva após si o mundo não são as locomotivas, mas as ideias.

Atrelai as locomotivas às ideias, embora, mas não tomeis o cavalo pelo cavaleiro. Seja o que for e voltando ao objecto de que tratávamos, o arquitecto do elefante fez com argamassa coisas grandes; o do tubo da chaminé fez coisas pequenas com bronze.”

Hugo, Vítor,  in Os Miseráveis, vol. IV, O idilio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua de St Denis, no Capitulo « Em Que o Pequeno Gavrouche Tira Partido de Napoleão-O-Grande », Livros de Bolso Europa America, pp. 150-152.

 

* O monumento fora mandado fazer por Napoleão, que ao decretar o encerramento da Revolução, quis inscrever sobre a sua memória um símbolo do Império: “a superioridade da conquista universal sobre a insurreição caótica”. O projecto foi atribuído primeiro ao arquitecto Jacques Cellerier, e depois a Jean-Antoine Alavoine, que concebeu uma fonte na forma de elefante, de 16 metros de comprimento (diâmetro da base da estátua) e 24 metros de altura, em bronze e ornamentado a ouro. Ocuparia o centro da praça, voltado para a Rue Saint-Antoine.
Mas a campanha correu mal, faltou o bronze e ficou na praça a faraónica maqueta de gesso.

**Após a queda da Bastilha, projectou-se levantar uma grande coluna à Liberdade com o material que restava da fortaleza. A primeira pedra foi solenemente colocada a 14 de Julho de 1792, mas a Revolução impediu que o monumento fosse erigido. Tendo sido só levantada depois de Julho de 1830 – com o nome Coluna de Julho – quando as barricadas e a revolução voltaram a Paris e o regime absolutista de Carlos X foi derrubado e instaurada uma monarquia constitucional com Luís Filipe. 47 metros  de altura, com o génio da Liberdade, dourado, a equilibrar-se no pináculo: não para celebrar o 14 de Julho, mas uma vez mais para sobrepor a memória da revolução “moderada” de 30 aos excessos de 89. “O monumento falhado duma revolução abortada” comentou Vítor Hugo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: